domingo, 15 de fevereiro de 2026

DIÁLOGO COM DEUS

 

De repente, me vejo suplicando ajuda e a intervenção de Deus:

- Meu Deus, dê a mim e aos meus entes queridos muita saúde, amor, paz, sabedoria, alegria, proteção e prosperidade. Que tenhamos sempre a gratidão e a felicidade de receber tudo isso. Peço também a...

Antes que eu pudesse finalizar o meu segundo pedido, fui interrompida por uma voz vinda de dentro e ao mesmo tempo fora de mim.

- Você consegue escutar o que me pede?

- Sim!Por favor, me dê tudo isso para que eu possa ser sempre feliz.Eu lhe suplico!

- Súplicas!...É tudo que sabe fazer?

Com certo constrangimento, respondi:

- Não!! Eu sempre agradeço também. Devo a minha felicidade a você.

- Você não me deve nada! Parece sempre se sentir em dívida comigo. Por que mendiga tanto? Falou com firmeza.

- Porque nem tudo eu posso e és o todo poderoso; ninguém tem mais poder de ouvir minhas orações e realizar meus pedidos. Respondi.

- Você já se fez este pedido? Perguntou a voz.

- Como assim? Não estou lhe entendendo...

- Você é capaz de se entender?

- Que pergunta complicada! Nunca imaginei que fosse tão complicado.

- Eu complico ou você mesma? Questionou a voz.

- Por que um pedido meu seria algo complicado? Achei que o senhor ficaria feliz de ter uma filha que lhe recorre nas orações. Qualquer pai ficaria feliz por ter o lugar mais importante na vida de uma filha.

- Eu não sou um Senhor, nem tampouco seu pai. Não preciso de suas orações para lhe ofertar o que já é seu. 

Estarrecida e totalmente confusa, conclui:

- Acho que aprendi tudo errado. Se não é senhor, posso ter a liberdade de chama-lo de você.  Quem é você? Perguntei desconfiada.

- Eu SOU! Não preciso de nada. Vocês é quem projetam em mim desejos, mazelas e uma personalidade que lhes interessam. Eu não tenho personalidade e, nem tampouco, desejos. Eu não sou, não me interesso e não degusto o fruto de suas projeções. 

-Se você falou "Eu sou", isso significa que és alguma coisa. 

Antes que eu pudesse continuar, a voz prosseguiu.

- Eu, você e tudo que existe pode SER sem precisar de ser alguma coisa. 

- Não estou entendendo mais nada! Deus sempre quis que fôssemos alguma coisa. Será que estou conversando com Deus mesmo?

- Talvez, eu não seja o Deus que você deseja.

-Você não é o todo poderoso? 

- Vocês inventaram o poder e projetam o desejo de poder mandar em mim.

- Você não manda em nada então?

- Vocês é quem mandam e desmandam o tempo todo. Tentam, inclusive, mandar em mim. Criaram mandamentos que só interessam a vocês. Criaram obediência não a Deus, mas aos mandatários. 

Querendo checar tudo  que aprendi sobre Deus, perguntei:

- Somos tuas criaturas? Aprendi que criaste o homem à sua imagem e semelhança.

- Vocês é quem me criaram à imagem e semelhança de vocês. Numa sociedade patriarcal e machista, nada mais estratégico que ser um homem dominador e autoritário. Eu não tenho gênero. Dizem que eu sou o pai e não a mãe de todos. Criaram o santa trindade: Pai, Filho e o Espírito Santo. Onde está a Mãe, a Filha e a Espírita Santa? Para a mulher restou apenas o lugar da santa subalterna.

- À medida que você fala, vou ficando cada vez mais confusa. Acabaste de matar as minhas certezas.

- Não ter certeza da minha existência pode ser um bom começo para me encontrar. Vocês se perderam de mim quando se perderam. Não há encontro; só divisões e dissoluções entre vocês. Se continuarem criando um Deus ao invés de senti-lo, estarão sempre muito distantes daquilo que sou e não sou. Eu sou muito mais o que não sou para vocês.

Atordoada, suspirei:

- Ichi, complicou ainda mais! Tudo isso está me parecendo mais um diálogo com o diabo.

- Vocês precisaram, também, de criar um opositor. Para quem se alimenta de oposições e polaridades extremas, Deus e o diabo é um prato feito.

- Quer dizer que o diabo não é o seu inimigo?

-Ao contrário de vocês, eu não tenho inimigos.

- Quando começamos a nossa conversa, você foi  indiferente ao meu pedido. Você atende quem não ora e não lhe pede nada? A oração não é importante?

- A oração é muito importante para vocês se ouvirem e não para que vocês sejam ouvidos por mim. Não preciso escutar; eu sou a própria escuta. Como lhe disse, não preciso de nada. Vocês é quem precisam; precisam, antes de mais nada, escutar a própria voz e a voz de tudo que lhes rodeiam. 

- Esta voz que senti dentro e fora de mim? Completei

- O dentro e o fora também não existem, mas entendo que precise, ainda, destas relações espaciais e temporais para entender o espaço e o tempo.

- Você deve ser a eternidade então... Ou seria permanência? Refleti.

-Por que você não presta mais atenção naquilo  que és? Por mais que tente, nunca saberá o que sou. Como lhe disse eu sou tudo e não sou nada daquilo que supostamente vocês pensam. Você conseguiria unir ao invés de separar aquilo que criaram em meu nome? Quando vocês se separam, acabam se julgando mais ou menos importante para este Deus seleto. Julgam que os seus pedidos são mais urgentes e importantes. Se veem como os privilegiados de um Pai que dá e gosta mais de um filho do que do outro; um Pai distribui a riqueza de forma injusta deixando alguns na miséria, outros na riqueza e tantos outros na luxúria.

- Me ensinaram que quem vive na miséria vai viver, depois da morte, o paraíso e a riqueza.

- O paraíso para os pobres  está sempre lá e depois; para os ricos, aqui e agora. Para que deixar para depois o paraíso que pode e deve ser construido agora? Para que dividir o antes e o depois se eles podem coexistir juntos?

Fiquei pensativa por algum tempo. Aquele diálogo estava me revirando toda por dentro. Era bem mais lógico do que tudo que aprendi ao longo de minha vida. Me achei, de certa forma, muito medíocre. Como eu, como filha, mulher, mãe e trabalhadora, pude cair na cilada dos homens? Eu precisava confirmar tudo que estava descobrindo ali.

- Tudo isso está começando a fazer um pouco mais de sentido para mim. Por mais que queiramos, nunca terá preferência por um filho por melhor ser humano que ele seja. Afirmei.

- Ser um bom ser humano jamais deveria ser uma moeda de troca; deveria ser realização e prazer.  Eu não tenho filhos e nem mesmo preciso deles. Vocês criaram filhos para vocês e não para o mundo. Criaram filhos legítimos e não legítimos, adotados, primogênitos, deserdados e por aí vai. Criaram uma bolha chamada família. Nesta bolha, a atenção e o amor é direcionado, apenas, para quem está dentro dela. Criaram propriedades, heranças que são legitimadas pela lei dos homens somente a certas famílias. Pedem aos seus Deuses que mantenham na bolha o que deveria ser usufruído por todos.

- Você abomina a família? Se eu  não estivesse começando a tentar entender tudo isso, eu diria que seria uma insanidade.

- Sanidade e insanidade são condições também criadas por vocês. Eu não abomino a família. Apenas denuncio a ideia da família criada por vocês em meu nome. Dentro da bolha criada por vocês, não há espaço para todas as formas de vida que habitam o  planeta e o universo. A verdadeira família transcende a bolha. Se a una família não tivesse sido dividida, o mundo seria muito melhor pra todos. Ninguém seria dono de nada, nem tampouco Deus. 

A cada explicação, eu me perdia e me encontrava. Elas eram sentidas como uma bordoada na minha cabeça. 

- Tudo isso me deixou atordoada! Não sei mais o que dizer...

- Pare de falar, pare de pedir; apenas usufrua! Tudo que pede e não pede está aí para ser usufruído. Ao mesmo tempo, tudo que pede nem sempre será usufruído.

- Isso é o que torna a vida uma busca constante? Perguntei.

- Na verdade, isso é o que torna a vida um encontro interessante. Respondeu a voz que fazia tanta complexidade parecer tão simples.

- Mas, se eu  não vou conseguir usufruir tudo que peço, eu não estarei me encontrando com aquilo que quero. 

- De qualquer forma será um encontro; só que com aquilo que não queres. Pode não ser para você um bom encontro, mas é um encontro. E como já lhe disse, nada é  bom ou ruim. As coisas simplesmente são.  O Deus que sente dentro e fora de você é o mesmo Deus de dentro e fora de tudo e de todos. Não importa com quem você conversa ou se encontra nas sua orações. Desfrute e conecte com a energia divina do convidado ou dos convidados deste encontro! Esta energia está em tudo e em todo lugar. Ela é você, ela é o outro; é tudo palpável e não palpável.  Enfim, Deus é tudo e nada daquilo que pode ser compreendido.

Depois de tanta conversa veio o silêncio. No silêncio, eu pude, pela primeira vez, escutar e me aquietar. Ainda assim, eu sigo repleta de dúvidas. Mas, como ele mesmo disse, precisamos despir de nossas certezas para compreende-lo. Se eu cruzar com você por aí, vou adorar trocar umas "figurinhas" e usufruir a sua energia divina.