LIVRO

APRESENTAÇÃO








"Era uma vez"... Mais do que isto, "É para agora" que lhes apresento um livro virtual com histórias capazes de simbolizar aquilo que não tem forma, mas que se forma dentro da gente formando ou  deformando o nosso encanto de viver.
À medida que cada história tem a permissão para entrar no coração de quem as acolhe, uma nova forma de ser vai nascendo dentro de todos aqueles que se abrem para receber a magia de cada personagem que habita as mais belas histórias deste livro. Esta nova forma traz encantamento e o encantamento -  poder e alegria.
E, neste ato incessante  de transitar do real para o imaginário e vice versa, torna-se-a quem assim fizer, mais que encantado...  
                                                                  "Feliz para sempre".



DEDICATÓRIA



Dedico este livro a todos os personagens que habitaram as histórias que me foram contadas e a todos aqueles que com muito carinho parí.
Dedico também a personagens reais portadores de belas e instigantes histórias de vida, aos quais transformei em personagens fictícios incumbidos de libertar toda história presa no calabouço da realidade.
Por fim, dedico à realidade e à fantasia que representam, de certa forma, a energia yin e yang desta obra.







INTRODUÇÃO






Quem não conhece o poder das histórias, reais ou imaginárias, desconhece, de certa forma, o próprio poder. É no decurso de nossa história de vida, da história de vida das pessoas que convivem com a gente, da história de nossos ídolos, heróis e vilões que construímos a nossa identidade. É no contexto destas histórias que conhecemos a fragilidade, o poder e as estratégias de cada personagem. Somos um personagem no palco da vida. Construímos a nossa história e criamos o nosso personagem à partir desta construção, ou será que construímos uma história à partir do personagem que criamos para nós mesmos? Tenho observado que ambas as possibilidades são válidas. Assim, devemos nos comprometer em criar histórias e personagens dotados de muita sabedoria se quizermos um final do tipo: "E, foram felizes para sempre"... As histórias que escutamos tem sempre um final e a nossa história de vida segue continuamente. Parece não haver final algum, mas se observarmos bem, a nossa história é repleta de finais e recomeços. Há sempre o final de uma fase importante repleta de aprendizados. Dependendo da nossa maturidade e sabedoria podemos construir sempre um final feliz. Um final feliz não pressupõe, necessariamente, a ausência  da tristeza. Em alguns finais ela pode estar presente juntamente com a felicidade de poder extrair dela algo significativo que dê sentido e nos proporcione novos recursos para a próxima etapa a ser vivida. A felicidade é a estrutura, é sobretudo, o alicerce que construímos numa determinada fase para seguirmos mais seguros e alicerçados na fase seguinte. Por isso, uma história com o final - "E foram felizes para sempre"... é sinônimo de crescimento e evolução pessoal.
Podemos aprender muito com todos os personagens. Eles tem sempre uma mensagem importante a nos passar, sejam eles habitantes do mundo real ou dos contos de fada, mensageiros do bem ou do mal. Podemos aprender, sobretudo, com cada personagem que experimentamos ao longo de nosso processo de vida. Devemos matar alguns, eternizar e criar outros, enfim, devemos dar ao nosso personagem o poder que ele necessita para vencer os seus desafios e viver as suas conquistas. Somos verdadeiros deuses neste processo. Podemos ser diabólicos e dificultar a vida de nosso personagem. Dota-los de recursos ou fragiliza-los será sempre uma escolha nossa. Não existe o certo e o errado. Existe, apenas, a história que desejamos viver.
Contar histórias para as nossas crianças e para a criança que existe dentro de todos nós é muito mais do que um passatempo prazeroso; é um gesto terapêutico e educativo. As histórias circulam livremente pelo nosso inconsciente sem censuras, resignificando e trazendo mais luz à sombra de nossos mais profundos conflitos. Ao contrário de uma repreensão que arma a pessoa com todas as suas defesas, uma história bem contada desarma a mente e o coração. Ao contrário de uma didática massante e desmotivadora que aciona na mente o desejo de vagar e dispersar, as histórias estimulam o desejo de aprender.  Assim, antes de dar aquela bronca, oferecer um discurso moralista, uma informação ou conhecimento que o outro tenha resistência em receber, seja mais criativo; conte uma história real ou imaginária. O nosso cérebro não aprendeu ainda separar o real do imaginário. Aliás, nem sei se há alguma possibilidade dele aprender isto algum dia. Até o presente momento só temos certeza de uma coisa - a realidade é uma criação nossa. Sendo assim, crie as mais belas histórias e construa o seu paraíso.








HISTÓRIAS








QUANDO DEUS ENLOUQUECEU




Ninguém jamais pensou na possibilidade de Deus enlouquecer um dia, mas existe um relato, não sei se de um maluco, ou de um indivíduo são, que descreve a loucura de um Deus que ele jura crer. Assim como muitos de vocês, ele afirma ter ouvido o seu Deus, ou mais precisamente os lamentos do mesmo. Certo de que seu Deus não mente, ele acreditou piamente na história contata por seu Deus nem tanto poderoso. A história era mais ou menos assim.
Repentinamente Deus se estafou, perdeu sua força e foi pedir ajuda ao diabo. Chegando ao inferno foi recebido cordialmente pelo mesmo que perguntou surpreso:
—O que fazes aqui?
—A loucura me trouxe aqui. Os humanos me enlouquecem. Não dou conta de ouvir tantas lamentações, desejar tanto para eles e ser responsabilizado por situações que não provoquei.
—Como assim?
—Tudo agora é “se Deus quiser”, “Deus que quis assim”e por aí vai. Ninguém se responsabiliza por mais nada. Respondeu o Divino com uma expressão que denotava perplexidade.
—Você me parece depressivo... Evocou o diabo querendo diagnostica-lo.
—Também pudera! Ando me relacionando com gente que cultua a desgraça em meu nome. Vivem lamentando, chorando e esperando o dia em que os trarei ao paraíso. Que paraíso poderá existir não dá conta de ser feliz?
—Acho que eles já estão, de fato, te confundindo. Parece até que andas preocupado em criar um paraíso para quem ama o inferno. Deste jeito você acaba assumindo o meu lugar e não estou disposto a concedê-lo a ti. Ponderou o diabo coçando o seu chifre denotando preocupação em ser traído.
—Você tem razão. Estou deveras confuso. Olhe onde vim parar! Mas com tantos pedidos, com tantas responsabilidades em minhas costas, estou realmente muito estressado. Desabafou Deus com uma expressão que revelava uma total escassez de energia.
—Sabe que estresse é também uma responsabilidade minha. Deixe isto por minha conta. Não se intrometa onde não é chamado. Quando um ser humano se estressa é por mim que ele está chamando, mesmo que não queira conscientemente admitir.
—E eu que nada desejava, passei a desejar tudo. Tornei-me um ser voraz e avarento. Criaram um Deus insatisfeito, que jamais se satisfaz. Um Deus pedinte que impõe egoisticamente os seus desejos sem levar em conta as necessidades do outro. Já construí o paraíso e coloquei ao alcance de todos eles. Mas eles nunca estão satisfeitos, querem sempre mais e mais e mais e mais...Nunca conseguem ver o que possuem. Só sintonizam com a falta que você sabiamente lhes oferece. Acomodados, nunca se dirigem em direção ao céu. Querem que eu caminhe por eles e os carreguem no colo como se eu os tivesse criado deficientes. Que comodismo!Que insatisfação!
—Sabes também que voracidade é uma tarefa minha. Acho que estou cumprindo bem a minha parte atendendo satisfatoriamente a voracidade da humanidade que se torna cada vez mais faminta e perdida.O ser humano se perdeu e há pouca gente habitando este paraíso que você criou. Se queres saber, eu acho que o que te enlouquece não é tanto o excesso de serviço, mas a falta dele. Ironizou o diabo.
—Como assim? Inquiriu Deus à sagacidade do diabo.
—Serviço em excesso quem tem tido sou eu. Mas sabes que o estresse é um valioso alimento para a minha alma. Jamais me enlouquecerei por conta disto. Pelo contrário, me sinto cada vez mais forte e energizado. O meu rebanho tem ficado cada vez maior. Às vezes fico um pouco chateado com algumas coisas, mas tudo bem, no fundo é por uma boa causa.
—Com que? Perguntou confuso a sábia divindade.
—Construo obras fantásticas, extremamente devassas e fraudulentas, porém quem recebe o título de autoria acaba sendo quase sempre você. Cheguei até a invejá-lo numa certa ocasião, mas depois acabei foi ficando muito feliz com tudo isto.
—Mas, por que?
—Por que descobri que mudar o autor era apenas mais uma forma de ludibriar os bobos.
—Parece que tem tido fortes motivos para ficar bem satisfeito...
—Estou muito satisfeito. Meu inferno não é mais habitado somente por pessoas perversas e más. Tenho conquistado uma clientela bem diversificada. A ala dos coitados, por exemplo, é a que mais tem crescido. Eles adoram serem maltratados, manipulados e escravizados. Chegam aqui me idolatrando e passam a eternidade pensando que sou aquele Deus arbitrário que lhes foi apresentado um dia. Não desmistifico a crença dos mesmos, pois de certa forma sou um Deus diabólico. Eu os alimento com meus desejos sádicos e eles me alimentam com seus desejos masoquistas. Criamos assim uma relação sadomasoquista perfeita. A única coisa que não me satisfaz é a sua presença aqui. Você bem que podia sair rápido do meu território, pois a sua energia desarmoniza o inferno. E, sabes que trato é trato. Você lá e eu cá. Cada um em sua jurisdição. Ninguém se intromete na comarca do outro.
Naquele momento Deus deu uma grande risada. O diabo até se assustou. A expressão daquele Deus até poucos minutos atrás insano não denotava agora nenhuma loucura. O diabo não entendeu como uma transformação tão rápida fosse possível. Acreditou até que pudesse ser um jogo de Deus para conseguir alguma coisa, no entanto, sabia que Deus jamais faz jogos com ninguém. Compreendeu que ao pensar que aquela divindade estivesse agindo de má fé era, na verdade, apenas uma projeção sua, assim como os humanos fazem o tempo todo com a mesma. Só não conseguiu compreender aquela presença misteriosa ali, naquele lugar, naquele momento e com aquele estranho discurso que em nada parecia com a sua verdadeira essência. Mas, como Deus sempre foi um grande mistério, não perdeu seu tempo tentando quebrar sua cabeça a solucionar este enigma. Se tem uma coisa que diabo não gosta é de se esforçar, não possui força de vontade para isto.
Eu, como humana e portadora da divindade em mim, acredito que foi apenas mais uma forma de Deus se concretizar numa simples historinha, ajudando uma terapeuta e uma escritora bem intencionada a passar mais uma mensagem a quem deseja, de fato, crescer, desenvolver-se e tornar-se mais divino. Esta história pode parecer meio torta para quem conhece Deus, mas, se tem um ditado que diz: "Deus escreve certo por linhas tortas" ... Como boa mineira que sou, posso concluir:"Então, tá tudo explicado pra mim, procê e pro diabo, uai".



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A DEUSA DA SABEDORIA




            Havia uma Deusa muito sábia que pensando no desenvolvimento do ser humano criou inúmeras sementes com o gen da evolução para que o mesmo pudesse semea-las e cultiva-las. Cada semente deveria ser plantada no solo de nossa alma, cultivada com carinho e dedicação para que uma floresta de boas virtudes, potencialidades e recursos pudesse habitar a nossa vida. Alimentar-se dos frutos das árvores desta rica floresta faria com que alma estivesse sempre bem nutrida.
            Todo ser humano receberia ao nascer sementes de todas as espécies devendo cuidar destas e alimentar-se dos seus frutos até o seu último dia de vida. Antes mesmo do nascimento seria advertido de que todas elas seriam importantes e fundamentais ao seu desenvolvimento, devendo, portanto, cuidar  de todas sem discriminação e com o mesmo apreço. Caso atribuísse mais atenção a qualquer uma delas, correria o risco de submeter-se a uma grande maldição e desnutrição.
            Certa de que seu projeto de evolução humana seria indispensável à saudável perpetuação da espécie, a Deusa da Sabedoria pariu infinitas sementes que carregavam o gen do amor, da paz, da fé, da felicidade, da saúde, do conhecimento, do trabalho, da criatividade, do lazer, do prazer, da esperança, da humildade, da verdade, enfim, de todos os nutritivos recursos que o homem precisaria para ser uma grandiosa obra. Parindo-as, ofertava cada semente a toda alma que se comprometesse com este magnífico projeto de vida.
            A vida se tornou uma benção, pois todo ser que chegava ao mundo semeava e cultivava com empenho e sem discriminação cada árvore virtuosa e com os frutos da mesma preparava as mais diversificadas e saborosas refeições para sua alma. Com um cardápio altamente diversificado e enriquecedor preparavam criativos banquetes que os deixavam bem alimentados e fortificados.     
         Desde o nascimento, o ser humano já era uma potência que necessitava apenas ser desenvolvida. O tempo associado aos cuidados básicos com cada semente transformava todos os brotos numa floresta virtuosa e potencialmente repleta de recursos.
          Como toda natureza tem os seus desvios, eis que apareceu na natureza humana uma primeira ameaça ao seu equilíbrio. Um ser diabólico invejando o nirvana daquele paraíso resolveu jogar sobre a alma humana uma semente que dificilmente seria reconhecida. Ela não era uma semente do mal, aliás, todos os seres já tinham sido advertidos sobre os perigos das sementes malignas e tão logo uma erva daninha começasse a brotar, rapidamente empreendiam esforços maciços no sentido de exterminá-la. Esta nova semente diabólica potencializava o desejo de exercer cuidados exclusivos a apenas uma espécie. Como o ser estaria totalmente comprometido com a força virtuosa da dedicação, dificilmente reconheceria estar fazendo mal às outras espécies que estariam relegadas ao segundo plano e futuramente ao esquecimento. Este plano diabólico dificilmente fracassaria e foi justamente isto que aconteceu. Para alegria do compulsivo diabinho, o seu plano brotou com toda força em muitas almas desavisadas que compulsivamente começaram a se dedicar a uma única semente. A dedicação a uma virtude fazia com que todos pensassem estar trilhando o caminho certo e a alma tomada pela obstinação compulsiva não teria discernimento para perceber a negligência para com o resto das coisas à sua volta.
          A Deusa da Sabedoria chorou ao ver o caos infringido à sua obra. Naquele momento não sabia como resgata-la de tamanha maliciosidade. Os que se dedicavam à fé compulsiva perdiam a visão e saiam pelo mundo alienados pregando o fanatismo em almas que haviam também se perdido, crucificando-as ao invés de libertá-las. Os que optavam por uma dieta baseada na verdade compulsiva passaram a se sentir donos da mesma e a comercializavam apontando como única saída para a salvação o seu próprio desejo de dominação. Havia aqueles que viviam da humildade exacerbada confundindo-a com a miséria e se tornando pobres mendigos. Os que tinham fome de conhecimento se tornaram analfabetos para as coisas simples da vida. Aqueles que amavam loucamente se agarravam possessivamente a seus entes queridos como se fossem donos ou propriedade dos mesmos. Existiam os que buscavam apenas a alegria transformando-se em palhaços que ao invés de graça inspiravam tédio. Os que se alimentavam apenas da árvore da criatividade criavam incessantemente, mas jamais usufruíam sua criação ou da criatividade do outro. Quem se tornou obstinado pela saúde do corpo não se atrevia a fazer nada que não fosse tratar das mínimas probabilidades de adoecer tornando-se um hipocondríaco em potencial. Até a paz não saiu ilesa desta estória, tornou-se vítima de vãs filosofias que se sustentavam apenas em teorias. Seus adeptos nada de prático faziam e fugiam de qualquer conflito se refugiando em templos meditativos. O trabalho compulsivo estressou infinitos seres transformando-os em máquinas; alienados, julgavam-se nobres operadores de produção não identificando o labor doentio. Onde estava a esperança para o fim deste caos? Quem se dedicou exclusivamente a ela idealizava um futuro maravilhoso onde todas as dificuldades seriam superadas; conformavam-se passivamente com o trágico presente e nada faziam para transformá-lo.
  A Deusa da Sabedoria assistia o flagelo humano sem saber como ajudar. Viu florestas inteiras sendo devastadas e transformadas em áridos desertos. A alimentação foi ficando escassa e artificial. Alimentos antes produzidos pela própria alma deveriam agora ser comprados em centros comerciais. Todas as virtudes começaram a ser comercializadas. Quem não cultivava o equilíbrio poderia adquiri-lo em forma de enlatados cuja marca intitulava-se Spa. Quem não cultivava a alegria poderia comprar um saco de risadas. Aqueles que não tinham tempo para saúde compravam nas farmácias as pílulas de vitaminas, proteínas e sais minerais capazes de evitar variadas doenças. O conhecimento passou a ser vendido, jamais conquistado. Todos poderiam comprá-lo somente em cursos e livrarias. Os que não tinham tempo para fé pagavam o dízimo e conquistavam o paraíso. A liberdade era comprada em cursos de vôo livre e em lojas que vendiam equipamentos de vôo capazes de produzir a tão sonhada  sensação de ser um pássaro. A mídia fazia propagandas maravilhosas sobre antidepressivos e ansiolíticos que se instituíam como sendo a pílula da felicidade, da paz e tranqüilidade. Com o amor e com os prazeres sexuais não foi diferente. Havia pílulas, programas e sites computadorizados capazes de estimulá-los. A beleza era comprada nas lojas e a juventude adquirida através de caros cosméticos. Começar a produzir seres humanos em laboratório de acordo com os padrões vigentes era muito mais apropriado e chique do que o ultrapassado e cafona método natural. Tinha-se filhos de acordo com a moda da estação. Quando a moda passava alguns pais se sentiam frustrados, mas tratavam de institucionalizar deste cedo seus filhos em nome de uma boa educação. E assim, sucessivamente, foram acontecendo uma série de transformações que o homem deu o nome de progresso.
Carente de uma alimentação natural e sadia e absorta em tanta artificialidade, um câncer espiritual passou a se proliferar na raça humana com forte poder de destruição. A Deusa da Sabedoria se deu conta de que o obstinado progresso humano era bem diferente do seu maravilhoso projeto de evolução. Sua obra perdeu gradativamente o poder de discernir e desenvolver-se. Sabia que semente poderia salvar a humanidade do caos, mas não sabia como introduzi-la neste novo universo humano. Com sua divina sapiência pariu-se a si mesma e ofertou-se a terra em forma de semente.
 Eu não sei lhes dizer ainda onde caiu a semente da sabedoria, mas posso lhes garantir que em algum lugar ela existe e é com certeza a nossa única saída. Às vezes tenho a impressão de que ela se encontra dentro de todos nós em um lugar muito escuro que necessita apenas de um pouco de luz para germinar, crescer e se desenvolver. O Deus Iluminação há de lançar seus raios de luz sobre esta semente. Sei que uma nuvem negra não deixa a luz penetrar no interior da alma de alguns seres, mas já consigo ver muitos outros irradiando luminosidade e isto me enche de esperança e felicidade. Se houver uma nuvem negra sobre voce, comece a soprá-la desde já. Eu lhe garanto que por detrás dela uma luz poderosa lhe aguarda.





A LOJA DE BRINQUEDOS


            Eu queria todos os brinquedos daquela loja, no entanto, tinha que escolher apenas um. Eu sabia que todos eles eram especiais e que poderiam me trazer grande alegria e satisfação. Ainda assim, meu pai me dava o direito de escolher apenas um deles. Revoltado com o limite que meu pai me impunha, debatia-me diante daquelas prateleiras recheadas de lúdicas possibilidades tentando realizar uma escolha que não me fizesse sentir subtraído.
Ao meu lado, presenciei o discurso tentador do pai de uma outra criança tentando oferecer à mesma tudo aquilo que o meu firmemente negava-me oferecer:
— Escolha tudo que desejar!
Curiosamente, aquela criança olhava com desprezo para as prateleiras. Uma falta de desejo nutria o seu ser. Finalmente, com um semblante indiferente resmungou insatisfeita:
— Eu quero ir embora. Nenhuma porcaria destas me agrada. Já tenho tudo isto e muito mais. Eu não quero nada. Eu não preciso de nada!
 Naquele momento pensei:
— Ai se eu fosse como este menino e não desejasse nada... Seria tão bom!
Aquilo tudo ficou guardado em minha memória. Naquele momento, eu ainda era jovem demais para compreender o sentido daquela cena que passara diante dos meus olhos. No entanto, a minha alma de criança a guardou na memória para que eu pudesse resignifica-la mais tarde.
Hoje, eu não posso ter mais um pai ao meu lado para negar-me a realização imediata de todos os meus desejos, pois ele não se encontra mais disponível nas prateleiras de minha vida. Hoje meu pai é o precioso brinquedo que não posso ter. Ele vive e está acessível apenas nos meus sonhos.
Também não posso ter um carro do ano, pois ele não cabe nas prateleiras de meu salário atual. Fico a lembrar como elaborei na minha saudosa infância a não aquisição daquele carrinho tão desejado que não pôde ser comprado por ser caro demais e não caber nas prateleiras do orçamento doméstico de minha família.
Lembro-me também que não pude ter todas as namoradas que desejei na adolescência, mas que pude escolher uma bem especial, a que mais gostei e com a qual me casei e tive meus filhos.Vejo agora que não posso escolher o futuro que desejo para eles, mas que posso amá-los incondicionalmente.
Desejei quase tudo, mas pude escolher apenas o que era especial para mim. Hoje vejo que este limite é tudo de especial que um ser humano não deseja, mas que realmente precisa. Quando me lembro daquela criança que aparentemente tinha tudo, fico a pensar se em algum momento de sua vida ela teve a benção que meu pai jamais me negou: “Poder escolher o que de mais especial toca nossos corações”. Acho que ela não teve aquilo que com fartura tive durante toda minha vida: “Desejo”. Acho também que aquele menino não aprendeu a arte que nos faz seguir em frente na vida: “Saber escolher aquilo que realmente necessitamos para o nosso desenvolvimento”. Hoje eu concluo que ele tinha tudo e não tinha nada. E eu? Eu não tinha nada que não fosse realmente útil e importante na minha vida.
Neste momento sinto que preciso agradecer meu pai por tudo que não me deu:
 — Obrigado por ter me ensinado a desejar e escolher. Obrigado por ter subtraído futilidades e adicionado conquistas em minha vida.










JUJU


Era uma vez uma maritaca chamada Joana. Joana nunca foi nome de bicho, mas quando se tenta transformar bicho em gente, tudo é possível. Antes de se tornar Joana, a maritaca desta história vivia feliz em seu ninho sendo carinhosamente alimentada por sua mãe que, dedicada a alimentá-la e protegê-la, esperava ansiosamente que suas penugens se transformassem em penas para lançá-la em seu primeiro vôo pela imensidão azul do céu. Aquele filhote, sem nome e sem identidade, esperava também o momento certo para receber as suas primeiras lições de vôo livre. Mostrando o vôo e a algazarra de inúmeras maritacas que voavam alegremente, a mãe lhe dizia:
— Em breve, poderás também experimentar o seu verdadeiro potencial.
—O que é potencial? Perguntou o filho, curiosamente.
—Potencial é o seu verdadeiro poder de ser.
—Ser o quê?
—Ser você mesmo.
—O que sou? Perguntou o filhote confuso.
—És uma ave livre e feliz. Veja como nossas companheiras voam alegremente pelo céu. Estamos sempre em festa, pois festejamos a cada dia a nossa existência. Existimos, e isto nos basta.
O filhote de maritaca aguardava tranqüilamente o seu momento até que sua tranqüilidade foi, inesperadamente, roubada por um bicho perigoso chamado homem. Furtado de sua vida junto à natureza, foi jogado dentro de uma caixa escura, bem diferente do confortável ninho em que se encontrava. Sua mãe tentando protegê-lo, gritava desesperadamente e atacava com seu bico e unhas afiadas aquelas mãos enormes que seguravam agressivamente seu filhote ainda frágil. Como na lei da selva sempre vence o mais forte, o bicho homem conseguiu vencer a mãe e apropriar-se de seu filho. Aquela ave livre se transformou repentinamente em mercadoria. Dentro da caixa ouvia atentamente um barulho e um cheiro estranho jamais sentido. Vez ou outra, aquelas mãos grosseiras retiram o frágil filhote de dentro da caixa exibindo-o diante de uma natureza árida e de animais estranhos que passavam velozmente rosnando e empoeirando tudo ao redor. Subitamente, um destes animais parou e dentro dele saiu  outros bichos iguais aqueles que haviam lhe separado da mãe. No entanto, um deles tinha um piado mais suave. Sem entender a linguagem deles, mas observando tudo ao redor, percebeu que algumas folhas, nem tanto parecidas com as folhas da árvore que lhe abrigava, foram trocadas entre aqueles bichos estranhos servindo de ponte para que ele pudesse agora mudar de dono. Eis a conversa do bicho homem que não foi compreendida pelo filhote de maritaca:
—O que é isso, moço?
—É maritaca, dona. Quer levar uma?
—Coitadinha. É tão pequena! Você não tem pena, não?
—Pena? Isso é igual praga por aqui. Se a gente não pega, outro acaba pegando.
—Devia ser proibido tirá-la do ninho nesta idade. Ela pode morrer.
—Proibido é, mas a gente tira assim mesmo. Se você levar  tenho certeza de que ela sobrevive.
—E se eu não levá-la?
—Ela morre e a gente pega outra.
—Você tem coragem de deixá-la morrer?
—E  precisa de coragem pra isso, dona?
Aquela dona, abismada com a frieza daquele ser que  de humano nada tinha, olhou no fundo dos olhos daquela maritaca e apaixonou-se com a inocência que brilhava em seus olhinhos. Não teve coragem de abandoná-la e propôs um acordo àquele insensível mercador de aves:
—Se eu comprá-la você me prometeria colocá-la novamente no ninho ao qual você a retirou?
—Tem jeito não, dona.
—Por que? Eu te pago para que ela volte à natureza.
—Eu poderia até usar de sua boa vontade, mas não vou fazer isso não. Infelizmente, ta tudo destruído. Se voltar com ela pro mato, ela morre.
—A fiscalização não costuma passar por aqui?
—Até que passa de vez em quando, mas a gente sempre fica sabendo antes.
A conversa foi interrompida por uma criança que implorando à mãe conseguiu convencê-la:
—Por favor, mamãe! Leva ela. Eu não quero que ela morra.
—Mas, minha filha, ela pode morrer com a gente.
—Se cuidar direito, ela não morre não, dona – interferiu o mercador de aves.
—Como se cuida deste bichinho? Perguntou a mãe, temerosa de não dar conta de uma tarefa, à primeira vista, imprópria aos seres humanos.
—É só dar angu na boca. Respondeu, prontamente, o mercador,
—Mas, angu é coisa que maritaca nunca comeu, moço! Angu é comida de gente.
—Com o tempo ela aprende a comer e a viver como gente, dona.
Sem opção, a dona de bom coração resolveu levar a maritaca. Colocou-a dentro de seu automóvel até então percebido pelo filhote como um grande bicho que rosnava e voava velozmente por uma trilha chamada rodovia. Apesar de assustado, aqueles novos bichos  pareciam mais mansos. Acariciavam a sua cabeça de uma maneira não tão delicada como a sua saudosa mãe fazia, mas pareciam não representar uma ameaça à sua vida.
O tempo dentro daquele bicho estranho que rosnava parecia não terminar nunca. Será que viveria ali pelo resto de sua vida? Foi ficando com fome e com sede. Quando é que aquele bicho homem se portaria como a sua mãe adivinhando o momento certo de alimentar-lhe?
—Mamãe, será que ela está com fome? Perguntou a filha adivinhando as necessidades do bebê maritaca.
—Acredito que sim, filha. Mas, o que vamos dar a ela agora? Não temos aqui comida de maritaca e nem como preparar um angu bem gostoso para ela.
—Talvez ela goste de biscoito de chocolate. Se ela se parecer comigo, vai devorar este pacote inteiro.
—Biscoito é comida de gente. Pode ser que ela não goste. Advertiu a mãe.
—Angu também é comida de gente e  ela come. Vamos tentar? Melhor do que deixar ela morrer de fome. Sugeriu a criança.
—Esfarele um pouquinho em sua mão e coloque dentro do bico dela. Vamos ver se ela aceita. Recomendou a mãe, um pouco receosa.
A criança esfarelou um pouquinho de biscoito recheado de chocolate em sua mão e um tanto sem jeito, com o carro fazendo curvas e caindo de minuto em minuto nos buracos da pista da rodovia mal conservada, foi colocando os farelos no bico da maritaca. Quase que os dedinhos finos daquela criança desciam também goela abaixo junto com os farelos de biscoito. Segurando-o pelo pescoço, ou melhor, enforcando-o com as melhores intenções que uma criança pode ter por um animal desconhecido, a menina se exaltava toda vez que conseguia fazer uma massa de biscoito esfarelado descer pela goela do bichinho.. Parecia um jogo, onde o alvo era o estômago daquela maritaca.
—Olhe, mamãe, ela está adorando!
—Não posso olhar. Tenho que manter a minha atenção na estrada.
Com seu jeitinho infantil, a doce e bem intencionada menina cuidava de uma maritaca indefesa que engolia e se entalava sem nada poder dizer. Sem entender a linguagem daquele bicho que dela cuidava, a maritaca começou a berrar pedindo socorro. A menina, prosseguiu:
—Olhe como ela está feliz, mamãe! Ela já está até cantando. Pode dar o pacote todo?
Por  sorte da maritaca, a mãe interveio com precaução:
—Melhor não dar mais nada, pois ela pode não se sentir muito bem depois. Dê água, pois ela deve estar com sede.
—A água acabou, mamãe. Só resta uma caixinha de suco de goiaba. Pode dar o suco para ela?
—Será que maritaca gosta suco?
—Ela deve gostar de fruta, principalmente de goiaba que tem tanta semente. Todo passarinho gosta de semente. Acho que vai adorar, mamãe!
—Então, experimente! Veja se ela aceita.
Querendo alimentar, carinhosamente, o seu mais novo bichinho de estimação, a menina prosseguiu com suas idéias eminentemente infantis:
—Vou cuidar dela como cuido da minha boneca papinha.
Como se fosse o bico de uma mamadeira de boneca, a menina enfiou o canudo presente na caixinha do suco pela goela abaixo do bebê maritaca. Vendo que não saía nada e percebendo a aflição da ave que agora já nem berrava mais, a garota mudou sua estratégia. Abriu um buraco bem grande na caixa e derramou o suco no bico da ave. A maritaca se afogou no  suco de goiaba e seu corpo ainda em penugens foi sendo banhado por aquele viscoso líquido vermelho. Terminado o tratamento, perfeito para a criança e traumático para a maritaca, a criança deu-se por satisfeita:
—Ela está toda melada, mas relaxou e dormiu, mamãe. Será que ela vai gostar de mim?
—Com certeza, filhinha. Você cuidou tão bem dela que ela vai querer que você seja a sua mãezinha.
A viagem chegou ao fim e com ela quase chegou ao fim a vida daquela maritaca. No entanto, aquele bichinho conseguiu sobreviver. Cuidados especiais passaram a ser dedicados ao mesmo por aquela família que o adotou como se fosse uma filha. Após a viagem, orientada por uma veterinária que ajudou a salvar a vida do bicho, a família tentou adaptar a sua alimentação e cuidados especiais às suas reais necessidades. A maritaca foi condenada a sobreviver, pois a vida plena já não lhe era possível viver, já que esta lhe fora negada no dia em que lhe privaram do contato com a natureza.
A sua nova família lhe dedicava atenção, carinho e amor. Tratavam-na como um ser humano. Vangloriavam-se por tratar tão bem uma simples ave. Nunca pensaram que nenhum bicho, em sua essência, gostaria de ser tratado como gente. Até nome de gente deram ao mesmo.
—Precisamos de dar um nome a esta maritaca, mamãe.
—É verdade, minha filha. Todos nós temos um nome. Que nome daremos a ela? Se eu tivesse uma outra filha, lhe daria o nome de Joana. Acho lindo este nome.
—Ótimo, mamãe! Podemos apelidá-la de Juju.
Sem se preocuparem com o sexo da maritaca, batizaram-na de Joana. Este nome satisfazia o desejo daquela mãe bem intencionada. De boas intenções o mundo está cheio!.. No entanto, nem sempre o bem intencionado pára para pensar na intenção do próximo. Juju, por exemplo, foi vítima das boas intenções daquela família. Quando chegaram a saber que Juju era macho, já era tarde demais. A ave já estava quase aprendendo a pronunciar o seu próprio nome e se reconhecia como tal.
—Olhe como Juju consegue voar alto! Exclamou exultante a doce criança da casa depois de alguns meses de cuidados intensivos e maternais para com a ave.
—Precisamos tratar, urgentemente, de cortar as asas dela. Proferiu a mãe checando as asas da ave que  iniciava, alegremente, suas primeiras tentativas de vôo.
—Ela me parece tão feliz! Não acho justo tirar esta felicidade dela. Questionou a filha.
—É preferível negar a ela o direito de voar do que de viver. Ponderou a mãe supondo, naquele momento,  ser a dona da razão.
Sem entender as ponderações racionais da mãe a criança perguntou, confusa:
—Todo pássaro voa. Por que o vôo de Juju a mataria?
—O seu vôo lhe traria a liberdade. De posse dela, Juju nos deixaria e partiria para o mundo onde seria rapidamente devorada por outros animais mais fortes do que ela. Ela vive no mundo dos homens. É totalmente protegida por nós. No reino animal não saberia lutar pela sua sobrevivência, pois não aprendeu a se defender e nem mesmo a buscar o seu próprio alimento.
A idéia de perder o seu bichinho de estimação calou qualquer questionamento que aquela criança pudesse fazer. Era ainda muito imatura para aceitar a perda ou lidar com o trágico e misterioso tema da morte. As asas da maritaca foram cortadas. Seguindo o critério das boas intenções, lhe foi permitido gozar nos finais de semana o prazer de pular,  galho em galho, numa pequena árvore presente no jardim do sítio da família.
—E, se a gente deixasse ela ficar, hoje, nesta frondosa amendoeira? Perguntou a filha, numa outra ocasião, querendo ampliar o espaço para a ave que parecia se sentir tão acuada.
—Ela subiria alto demais e não teríamos como pegá-la de volta. Advertiu a mãe com cautela.
Diante de tantos cuidados e precauções, Joana desistiu, finalmente, de ser uma ave. Vivia como gente e aprendeu a viver como gente que desaprende a ser livre. Teve sua liberdade conquistada no limitado espaço do apartamento onde vivia. Assim, ao contrário de muitas maritacas e papagaios, suas frágeis perninhas jamais foram amarradas no poleiro do aparador onde passava a maior parte de seu tempo. Pela manhã, ao acordar parecia contente. Dava seus gritos acordando toda família. Descia do poleiro, andava pelo corredor da casa, entrava em cada quarto dirigindo-se para as cobertas que esparramadas pelo chão serviam de plataforma para alcançar o alto da cama onde carinhosamente bicava o rosto de cada membro daquela família que acordava feliz por ter uma maritaca tão amistosa. Todos que conheciam Juju diziam satisfeitos: “Esta maritaca parece gente”! No entanto, nunca ninguém questionava: “Será que esta maritaca que parece gente, deseja mesmo  esta vida de gente?”.
Apesar da aparente felicidade, Juju não viveu muito tempo. Em um dia comum, diante de um procedimento também comum da doméstica que trabalhava para aquela família, Juju foi degolada na porta da cozinha. Muito assustada e temendo a reação da família, a empregada se justificou:
—Juro que não vi. Este poleiro não poderia ter ficado sobre esta porta. Juju fez um malabarismo com seu corpo projetando-o para baixo, esticando seu pescoço justamente no momento em que fechei a porta.
—Nós que sempre tomamos o cuidado de protegê-la da panela de feijão, de um pisão descuidado, ou de sua perigosa liberdade junto a outros pássaros que poderiam matá-la... Como é que nunca pensamos nesta possibilidade? Esta porta maldita! Juju nunca fez isto?
Ninguém se perdoou e jamais entendeu como Juju pôde ter agido de uma forma jamais prevista por aquela família. Eles não sabiam ainda, que chegada a hora de nos libertar fazemos coisas que jamais ousamos fazer antes. Todos se julgaram responsáveis pelo acidente de Juju. Ela não morreu fulminantemente. Penou com o pescoço quebrado por algumas horas.Todos penaram com ela. Durante a madrugada gritava de dor. Seus olhinhos imploravam aos donos a tão desejada liberdade que lhe fora roubada. Naquele momento de desespero, ninguém teve coragem de ofertá-la com as próprias mãos, mesmo sabendo que nada mais poderia ser feito. No entanto, o anjo das maritacas, com suas enormes asas, apareceu pela madrugada libertando Joana, Juju e aquela maritaca que parecia gente. Agora ela poderia ser finalmente um pássaro, nada mais do que isto.
Tentando elaborar a perda e entender o tão complexo conceito de morte, a filha implorou aos soluços:
—Você sempre protegeu e salvou a Juju de todos os bichos terríveis. Salva ela agora, mamãe!
Com lágrimas escorrendo pelos olhos e impotente para protegê-la e salvá-la de um simples procedimento doméstico, a mãe finalmente entendeu a mensagem que a vida lhe mandara, repassando-a a filha:
—Às vezes, nos achamos dona da razão e esquecemos que cada ser possui a sua própria razão de ser. A morte é inevitável a todos nós, a liberdade não. Negamos a liberdade a Juju, tentando, neste tempo todo, negar a morte a nós mesmos. Agora, a morte está aqui e nada podemos fazer. Em algum momento ela sempre virá, queiramos ou não, ela baterá sempre em nossa porta. Juju precisa morrer para esta vida pra poder conquistar a vida que a sua alma realmente almeja. Nós matamos a liberdade de Juju quando aceitamos trazê-la para o mundo dos homens. A porta apenas lhe trouxe a liberdade de volta.
Aquela maldita porta se fechou trazendo imensa tristeza e angústia para todos os membros daquela família que hoje luta pela preservação ecológica. Mas, se abriu definitivamente para aquela maritaca que pode finalmente voar alto e servir de exemplo para quem possui ainda a medíocre idéia de criar no poleiro o que anseia viver livre.
Hoje, na varanda do apartamento, a família que adotou Juju presencia alegremente a liberdade dos pássaros que visitam o aparador de Juju apenas para saborear alimentos que lá são colocados para satisfazer as necessidades do corpo. A lição saboreada por aquela família jamais foi esquecida: “As necessidades da alma devem ser única e exclusivamente uma escolha inerente e específica de cada ser”.







CORDA BAMBA

            Dizia uma antiga lenda que um valioso tesouro habitava uma caverna misteriosa. Nenhum ser humano, por mais afoito que fosse, jamais conseguiu chegar sequer na porta da mesma, pois para chegar até lá, o aventureiro deveria atravessar um precipício equilibrando-se numa corda erguida que servia de ligação entre um lado do abismo e o portal da caverna.
Cada aventureiro que sonhava conquistar o misterioso tesouro, tecia especulações das mais variadas formas:
— Eu acredito que deva ser um barril de pedras preciosas. Fantasiavam alguns.
— Deve ser o mapa de uma inesgotável mina de ouro. Diziam outros.
A imaginação fluía livremente e os ambiciosos que ousavam atravessar aquela corda levavam sempre consigo a esperança de riqueza, mas jamais a traziam de volta. O despenhadeiro nunca contou a ninguém o trágico destino dos mesmos.
Certo dia, porém, um simples e humilde palhaço equilibrista resolveu aceitar o desafio daquela corda. Até então, o desafio sempre fora para ele a maior riqueza de sua vida. Viver num circo, desafiar o mau humor das pessoas, tentando trazer de volta a alegria adormecida, nunca fora uma tarefa fácil. Dramatizar o papel do palhaço que nunca conseguia se firmar na corda bamba era uma missão gratificante, pois trazia no âmago da mesma um alívio para todos aqueles que não conseguiam se firmar na vida. Ironizar o desequilíbrio do ser humano, substituindo o choro pelo riso, tornava-se menos penoso. Sempre acostumados a rirem do palhaço, ninguém deu credibilidade ao seu desejo de ultrapassar aquela corda. Limitaram-se a dar boas risadas quando ele finalmente decidiu desafiar o despenhadeiro.
— Se os mais corajosos e ambiciosos homens jamais conseguiram vencer este desafio, o que um simples palhaço carente de ambição conseguirá fazer? Comentavam as incrédulas e invejosas personalidades da região.
— Que palhaçada! Como ele pode brincar desta forma com a própria vida? Censuravam outros.
Sem se importar com os comentários, arriscou-se. Lá foi o palhaço equilibrando naquela corda como jamais fizera no circo. As regras ali eram bem diferentes. No circo a regra era cair. Ali, manter-se em equilíbrio. Não havia espaços para a risada, apenas para a concentração. Durante todo o percurso teve muito medo. Temeu perder o que de mais valioso possuía — a própria vida. Para preservá-la não poderia perder o equilíbrio. Sabia que não podia pender radicalmente para lado algum; precisava manter-se centrado no próprio eixo. Centrando em si mesmo e dominando a cada passo a técnica do equilíbrio, conseguiu finalmente chegar à porta da caverna. Antes de adentrar foi dominado pelo mais profundo sentimento de valorização da própria vida. Sentiu que nenhum tesouro que aquela caverna possuísse poderia ser maior e mais valioso do que o equilíbrio que garantiu a sua vida. Ficou um bom tempo a pensar se teria o mesmo equilíbrio no seu trajeto de volta, chegando a esquecer-se do tão cobiçado tesouro da caverna, insignificante para ele naquele momento. Depois de muitas reflexões, resolveu finalmente vasculhar aquela enigmática caverna, não encontrando coisa alguma, a não ser um grande vazio que lhe encheu de sabedoria, induzindo-o a voltar novamente para o seu maior tesouro que era a vida que lhe aguardava do outro lado da corda. Cheio de esperança e contando apenas com os conhecimentos adquiridos e seu precioso equilíbrio, conseguiu chegar finalmente do outro lado. Depois de tudo que passou, de todas as conquistas, sabia que a vida jamais seria a mesma, apesar de aparentemente se dedicar às mesmas coisas. Ao cruzar a linha de chegada, uma multidão curiosa lhe perguntou indignada:
— Achou o tesouro?
— Sim, eu o achei. Respondeu irradiando admiração por si mesmo.
— Como pode ter um tesouro se não carrega nada consigo? Perguntaram desconfiados.
— O tesouro da caverna não se carrega, conquista-se. Respondeu com sabedoria
— Como assim?
— Quem pendeu ambiciosamente apenas para o lado da caverna, caiu no precipício. Eu não pendi para lado algum, centrei-me no meu equilíbrio para preservar o tesouro que eu já possuía sem, no entanto, me dar conta do valor do mesmo.
— Que tesouro? Inquiriram surpresos
— A minha própria vida. Exclamou repleto de alegria.
Ninguém deu apreço ao tesouro do palhaço, mas nem por isso ele se entristeceu, pois sabia que apenas a experiência de atravessar a corda bamba é capaz de dar ao ser humano a consciência da importância e do verdadeiro valor deste tesouro. Ele não virou herói, continuou sendo apenas um simples palhaço que, dentro do circo desequilibrava e caía mostrando com ironia a triste condição da maioria.





MEXIDO DE FELICIDADE


Em algum lugar que não sei bem onde, morava uma bruxa misteriosa e bondosa que trazia consigo a receita da felicidade. No nosso mundo, sempre ouvi muitas pessoas dizerem que a felicidade não existe; dizem que existem  apenas momentos felizes. Esta maneira de pensar sempre me deixou confusa pois, na verdade, nunca consegui sentir a felicidade como um momento, sempre a senti muito forte vibrando dentro de mim. Foi assim que resolvi consultar a minha intuição para que ela pudesse me levar até a tão famosa bruxa que, com certeza, me ofertaria a tão desejada receita da felicidade. De posse dela, eu a eternizaria dentro de mim sem deixá-la jamais correr o risco de se tornar um momento fugaz.
Fui atrás da tal bruxa. Para encontrá-la tive que escalar a dura realidade e adentrar em meus sonhos e fantasias. Sem saber como,  vi-me repentinamente defronte de uma mulher que não tinha cara de bruxa; tinha cara de criança, corpo de adolescente, jeito de adulto e sabedoria de quem já viveu muito. Com uma colher minúscula, ela mexia uma porção invisível dentro de um minúsculo tacho de cobre. Inspirava com prazer o aroma de seu preparado e experimentando-o deleitava-se dizendo:
— Que delícia!
A expressão de felicidade que aparecia em seu rosto desencadeou em mim um enorme desejo de provar também a sua porção mágica, apesar de não conseguir enxergar nada dentro daquele tacho. Antes que eu lhe pedisse um pouquinho de seu preparado ou fizesse qualquer pergunta ou apresentação referente à minha pessoa, ela procurou certificar-se da minha presença, afirmando com toda certeza:
— Aposto que veio à procura da receita da felicidade.
— Como sabes que vim aqui para isto? Perguntei.
— A sua expressão revela busca e revela dúvida também. Está confusa com alguma coisa?
— Achei o seu tacho pequeno demais para caber um sentimento tão grandioso quanto a felicidade. O mais intrigante é que não consigo ver nada dentro dele e você se delicia com algo que não consigo ver e sentir.
— A felicidade cabe em qualquer lugar, ela não tem tamanho. O seu cheiro e sabor escapa aos sentidos daqueles que não a prepararam. Sendo assim, a minha porção da felicidade só pode ser sentida por mim. Afirmou convicta.
— Interessante! Como posso preparar a minha porção? Perguntei exalando curiosidade.
— Tem certeza que deseja ser feliz? Perguntou-me.
— É claro! Respondi — Tem alguém neste mundo que não deseja?
— Há pessoas que desejam apenas a alegria.
— Alegria e felicidade não seriam a mesma coisa?
— Alegria é só um ingrediente da felicidade. Felicidade é um preparado muito simples, porém complexo. Nem todo mundo está disposto a prepará-la. Muitos acham mais fácil comprar nos hipermercados da vida uma substância apetitosa já pronta, ao invés de se dar ao trabalho de preparar algo que leva vários ingredientes.
— Quais os ingredientes necessários para preparar a porção da felicidade?
— Adivinhe! Exclamou a bruxa.
— A única certeza que tenho é que não há espaço para a tristeza neste preparado. Falei convicta.
— Engano seu. Até mesmo da tristeza é possível se retirar um extrato para a felicidade.
Fiquei ainda mais confusa. Tristeza nunca combinou com felicidade em minha filosofia de vida e, naquele momento, aquele ser misterioso  afirmava que ela também poderia contribuir para com a porção do sentimento mais requisitado pelos homens. Vendo a minha expressão de perplexidade a bruxa continuou:
— Nesta busca por um sentimento tão nobre quanto a felicidade, talvez fosse mais sensato deparar-se com uma fada e, no entanto você deparou com uma bruxa. Às vezes, achamos que a tristeza nos apresentará a infelicidade e ela muitas vezes vem nos preparar para saborear a felicidade que nos aguarda. Outras vezes, achamos que a alegria é a base da felicidade e ela acaba nos jogando no terreno da infelicidade. Parece um paradoxo viver, mas na verdade o que realmente acontece é que não conhecemos bem a essência dos sentimentos. Todo sentimento tem um tempero. É necessário sabermos usar a dose certa que agrade o paladar ou tirar dele a essência capaz de dar sabor agradável à vida.
— Quer dizer que posso estar triste e estar feliz ao mesmo tempo? Perguntei.
— Não. Você pode estar triste e SER feliz. Estar é diferente de ser. A felicidade não é um estado, mas sim, uma estrutura, ou melhor dizendo, uma construção. Eu diria que ninguém está feliz. Uma pessoa é feliz ou não dependendo da obra que realizou em sua própria vida.
— Então, não sou alegre. Eu estou alegre. Nossa, como é difícil diferenciar a alegria da felicidade.
— Sabe por que? Perguntou-me a bruxa rindo.
— Por que?
— Se eu lhe contar uma lenda sobre as travessuras de alguns sentimentos arteiros, você vai entender.
— Conte-me que já estou ficando curiosa. Solicitei.
— Dizem que o criador realizou uma festa de fantasia onde todos os sentimentos foram convidados. Ninguém soube explicar o porque desta festa, soube-se apenas do resultado dela. Relatam que a alegria foi fantasiada de felicidade, a paixão de amor, a preocupação de interesse, a rebeldia de liberdade, a indiferença de paz e por aí vai. Eles ficaram tão parecidos com estes sentimentos que ficava difícil identificar quem era um e outro. O pior é que eles gostaram tanto de viver a fantasia de ser um sentimento mais nobre que até hoje vivem pregando peças nos mais desavisados.
— Acho que estes sentimentos já me pregaram muitas peças. Daqui para frente tenho que ficar mais vigilante. Mas, quero ficar mais atenta à receita da felicidade. É possível você me ensina-la agora? Perguntei.
— Você veio atrás de uma receita como todos que conseguiram chegar até aqui. Só que daqui você não sairá com receita alguma, mas lhe darei algo mais precioso do que esta receita que você julga existir.
— O que? Perguntei curiosa.
— Darei a voce o Tacho para que prepare a sua própria porção de felicidade.
A bruxa foi até a despensa e saiu de lá com um lindo tacho de cobre na mão. Entregou-o a mim, ordenando-me:
— Não me pergunte mais nada. Vá embora e prepare a sua porção com os ingredientes que desejar. Nunca se importe se alguém lhe disser que algum tempero é picante, azedo, amargo, doce ou salgado. O que importa é a combinação e o sabor final que ele dará ao seu paladar.
Não pude perguntar mais nada, pois sem que eu percebesse já estava de volta. Talvez você esteja se perguntando: De volta para onde? Voltei para este mundo onde as pessoas julgam a felicidade apenas como um momento fugaz. Assim que cheguei, parei para pensar como prepararia este alimento tão importante e cheguei a conclusão que já o ando preparando desde criança, pois olhei para o meu tacho e vi dentro dele um delicioso mexidão. Não sei se você o enxergaria ou sentiria o seu delicioso sabor. Só sei que meu mexido além de simples, me alimenta e sempre me dá água na boca.
— Que delícia!




 O PORQUINHO QUE CHEIRAVA DIFERENTE



Era uma vez uma ceva onde viviam vários porcos, cada qual com uma personalidade diferenciada, contribuindo para a construção de uma vida tranqüila, agradável e segura. O mundo deles era o protótipo daquilo que costumamos chamar de qualidade de vida. Mas, o tempo passa e as mudanças são inevitáveis. Mudança não é sinal de retrocesso, aliás, as mudanças deveriam sempre acontecer trazendo junto melhoria nas condições de vida. No entanto, não foi isso que aconteceu com os animais desta história. As inevitáveis mudanças aconteceram trazendo junto um odor desagradabilíssimo que cheirava a falência das relações e da consciência dos habitantes daquela ceva. Como a maior preocupação dos porcos que ali viviam era lutar por um espaço maior, nem todos conseguiam sentir aquele cheiro diferente impregnando cada centímetro daquele ambiente que tivera, no passado, um aroma tão agradável. Aquele lugar foi ficando com um espaço cada vez mais limitado e reduzido diante da população que crescia sem controle e planejamento. Centrados apenas no desejo de posse e poder e na garantia das necessidades básicas de subsistência, a insensibilidade para perceber planos mais elevados de vida culminou sobre a maioria. Lentamente, sem se darem conta, alienaram seus pensamentos e sentimentos. Perderam vários sentidos, dentre eles, o olfato e o verdadeiro sentido da vida. Com a sujeira acostumaram a viver se adaptando bem ao desconforto que esta proporcionava.
Como toda regra tem exceção, no meio daquele antro pútrido vivia um porquinho com um olfato totalmente diferenciado dos demais. Apesar de amar aquele lugar, não conseguia mais se adaptar às precárias condições de vida oferecidas pelo mesmo. Consciente de que qualidade de vida é uma construção conjunta e responsabilidade de todos, resolveu intervir naquela situação insuportável questionando as autoridades e as pessoas comuns daquela comunidade suína.
― Precisamos eliminar este mal cheiro que nos persegue todos os dias.
― Mal cheiro? Perguntou surpreso um dos habitantes daquele local.
Surpreso com a insensibilidade olfativa de seu companheiro, o porquinho questionou-o novamente:
― Você não consegue sentir o mal cheiro que reina por aqui?
― Você deve estar ficando louco! Não sinto cheiro algum que não seja o nosso.
― Eu não tenho este cheiro! Relutou o porquinho negando-se aceitar aquele odor fétido como sendo seu também.
― Mais um querendo bancar o diferente... Sai dessa! Assuma a porcaria que nos cerca. Somos porcos e essa é a nossa condição. Ironizou o companheiro.
Assustado e decepcionado, o porquinho pôs-se a refletir sobre a sua condição existencial.
― Ser porco é ser sujo? Jamais aceitarei viver nesta sujeira. Provarei para o mundo que a porcaria só existe na cabeça de quem anda com a consciência apodrecida.
Convicto de que conseguiria limpar a consciência de sua espécie, tornando-a límpida e cristalina, resolveu procurar uma autoridade de sua comunidade. Sabia que a parceria com autoridades torna mais fácil todo processo de transformação. Sabia que autoridades são referências importantes capazes de gerenciar as mudanças que se fazem necessárias. Procurou o conselho suíno, relatando seu desconforto e colocando-se à disposição para colaborar ativamente na faxina da ceva.
― Temos coisas mais importantes para nos preocuparmos agora. É irrelevante a sua insatisfação. Ela não configura as necessidades da maioria. Não podemos fazer nada por você. Determinou o grande provedor suíno.
― Vocês não estarão fazendo, apenas, por mim, mas por todos. O bem estar e a saúde de todos encontra-se ameaçada. Será que não conseguem perceber isto? Indagou o porquinho transbordando perplexidade.
― Estamos bem adaptados a este cheiro. Os incomodados que se retirem! Não tente infringir desordem à nossa ordem. Ordenou um dos conselheiros.
Percebendo que a ordem daquele lugar se baseava numa desordem generalizada e que a consciência daqueles seres estava poluída pelos dejetos do comodismo, da indiferença, da insensibilidade e ignorância, o porquinho abandonou aquele “chiqueiro” e foi em busca de um outro mundo onde pudesse preservar o seu próprio cheiro. Demorou, mas encontrou um lugar onde a faxina dos sentimentos e pensamentos era sempre bem vinda.
Não foi fácil abandonar o que com tanto amor se dedicou a cuidar. Mas, depois de tanta luta descobriu que lhe restara apenas uma possibilidade: abandonar aquele lugar ou abandonar a si mesmo. Optou por se preservar. Partiu com o coração doído e convicto de que nem sempre todas as transformações almejadas são possíveis. Mas, tem certas coisas que serão sempre possíveis e necessárias - a transformação de si mesmo e a preservação de seu tesouro interior.
 

A ÁRVORE E O BEIJA-FLOR


No alpendre de uma fazenda vivia uma bela árvore que apesar de exuberante andava se sentindo triste e insatisfeita. Sempre carregada de flores, atraía diariamente a presença de um gracioso beija-flor que acabou por se tornar o seu melhor amigo. Nos últimos tempos estava exalando tanta tristeza que seus galhos e folhas perderam o viço assumindo uma expressão deprimida que passou a preocupar o dócil beija-flor. Perplexo com a mudança repentina de sua melhor companheira, resolveu interrogá-la para descobrir o motivo de tamanha melancolia:
— O que está acontecendo com você, amiga? Você que era tão alegre e viçosa vem assumindo nos últimos tempos uma notável tristeza e desânimo.
— De fato estou triste. Tenho tido dificuldades de reconhecer-me. Confirmou a árvore.
— Qual o motivo de sua tristeza? Perguntou novamente o beija-flor com clara intenção de ajudá-la.
— Preciso mostrar a minha verdadeira face e não consigo. Ando desanimada. Preciso crescer mais e mais, tornar-me frondosa como tantas árvores que vejo diante de mim.
— Não queira ser como as outras árvores. Cada um é o que é. Você será mais feliz se contentar com seu tamanho. Aconselhou o amigo beija-flor tentando consolá-la.
— Talvez eu tenha me expressado mal. Na verdade eu não quero ser como as outras árvores, eu quero ser eu mesma como você mesmo disse. E... Antes que pudesse prosseguir com suas explicações foi interrompida pelo beija-flor que a indagou surpreso:
— Então qual o problema! Se você busca ser o que é realmente não deveria estar triste. Deveria estar alegre de ser como é. Aliás, perfeita para mim.
— Perfeita para você, mas imperfeita demais para mim. Meu grande problema é que de uns tempos para cá passei a ser o que não sou.
O beija-flor adotou uma expressão de reprovação perguntando novamente:
Como assim? Não estou entendendo mais nada! Dá para explicar melhor?
— Me vejo pequena e sinto que posso ser muito maior do que estou sendo. Sinto que posso ser uma grande árvore, frondosa, capaz de abrigar não só você nos meus galhos, mas todos os pássaros que desejarem o meu acolhimento.
— Eu estou muito feliz com você deste tamanho. Afirmou o beija-flor.
— O fato de estar bom para você não significa que está também para mim. Eu quero ser muito mais, inclusive muito mais do que aquilo que parece ser bom para você. Pronunciou a árvore.
Incomodado com o pronunciamento de sua amiga, o gracioso beija-flor a censurou com aspereza:
— Você está sendo muito ambiciosa e invejosa!
— E você não está me entendendo. Eu não ambiciono e nem invejo o jeito de ser das outras árvores. Pelo contrário, eu até as admiro. Eu apenas quero ser melhor do que fui ontem. Quero ser melhor do que eu mesma e não melhor do que as outras árvores. Procuro sempre me comparar comigo mesma e tenho percebido que já faz algum tempo que não mudo. Caí na mesmice e isto tem me cansado. Mudar é o meu grande desafio. Mudar para melhor! Exclamou com mais entusiasmo a árvore tristonha.
— Então você já conseguiu realizar o seu desafio. Lembro-me de você ainda brotinho. Hoje, além de ter crescido, você se transformou também em meu descanso predileto. Seus galhos, mesmo pequenos, me acolhem e suas flores me sustentam. Acalentou o beija-flor tentando conformá-la.
— Ser tudo que fui e tudo que consegui ser até agora me deixa realmente feliz. Confirmou a árvore.
— Então se agarre nesta felicidade e se desapegue desta tristeza. Recomendou o amigo.
— Mas, se eu me desapegar desta tristeza que sinto agora eu estaria me desapegando de mim mesma.
— Você vai me enlouquecer! Não estou entendendo mais nada! Que benefício você pode ver na tristeza? Perguntou cheio de perplexidade o amigo beija-flor.
— A tristeza me trouxe um importante aviso de alerta. Se eu não ouvi-la agora, corro o risco de me transformar daqui para frente numa boba alegre. Advertiu a árvore com sensatez.
— Boba alegre?
— Sim. Boba alegre finge alegria.  Eu não quero fingi-la; quero vivê-la plenamente. Se a alegria que sempre me habitou com toda a sua algazarra deixou a tristeza falar, é porque o recado que ela traz, com certeza, é importante.
— Qual o recado que a tristeza lhe traz? Perguntou o beija-flor.
— A tristeza me diz que eu posso ser mais do que estou sendo. Diz-me também que ando parada, estagnada. Ela tenta me mostrar, com esta dura verdade, a alegria que me aguarda mais à frente caso eu não me acomode. Sendo assim, eu preciso me expandir. Afirmou a árvore.
— E como você vai fazer isto?
— Eu não sei. Tenho me esforçado para conquistar esta expansão, mas não tenho conseguido o que realmente desejo. Não consigo entender o que me falta.
— Talvez não lhe falte nada. Talvez você ande querendo ter mais do que pode ter realmente. Finalizou o beija-flor voando em direção a árvore mais próxima que parecia não ter tantos conflitos existenciais.
A árvore permaneceu ali, sozinha e irritada com seu melhor amigo, que parecia não    compreender seus anseios. Sabia que dificilmente qualquer ser compreenderia o que se passava no seu interior. Além de seu desejo de crescer, manifestava dentro de si um desejo pouco comum para uma árvore. Tinha também desejos de sair daquele lugar que vivia, mesmo consciente de que uma árvore não poderia sair andando por aí. Era como se estivesse plantada num lugar que não era o seu. Era como se suas raízes estivessem fincadas em um falso chão. Precisava encontrar o seu solo, mas a própria vida a havia colocado ali.  Possuía uma energia que a movia para o crescimento, no entanto, não conseguia observar nenhum movimento de expansão acontecendo consigo já há algum tempo. Passou uma boa temporada vivendo este conflito e lamentando chorosa a sua condição de ser. Do choro somou-se a revolta consigo mesma, bombardeando-se com ataques depreciativos. Chegou a pensar que talvez fosse pequena de fato e que tudo que sentia e almejava não passasse de uma bela fantasia.  Quando, sem perspectivas, começou finalmente a se preparar para aceitar uma condição que inicialmente julgava não ser a sua, passou por aquela região um violento tornado que tornou tudo muito diferente.
 A fúria da natureza parecia querer mudar tudo de lugar. Assistiu um drama que tornou-se seu também. Em meio ao arrastão meteorológico,  viu-se também sendo levada sem destino para algum lugar que não sabia onde. Consciente de que havia sido deslocada de seu local de origem, não entendia o fato de sentir suas raízes ainda presas ao chão. Era como se tivesse carregado seu solo consigo. Sem resistência para enfrentar a força avassaladora, permitiu-se ser conduzida acreditando nos desígnios da natureza. Cessado o furor de uma natureza que desconhecia, chocou-se repentinamente na encosta de um grande rio. O choque produziu um barulho estranho de algo rachando em torno de si. Crac!!!!!!!!!! Lembrou-se de uma história contada pelo seu grande amigo beija-flor ao retratar a mágica de seu nascimento:
— “Quando aquele ovo que me continha se rachou, eu pude me alongar e me sentir livre”.
Podia ouvi-lo apesar da sua ausência. Aquele choque sobre a encosta lhe provocava a mesma sensação que o seu amigo sentira no momento do nascimento. Era como se estivesse saindo de um ovo. A terra que outrora apertava suas raízes pareceu relaxar.
Suas raízes iniciaram um movimento de alongamento buscando, concomitantemente, fixar-se em um mundo novo aparentemente sem limites. Podia agora adentrar-se  num universo completamente diferente de tudo que vivera.  Desgalhada e desfolhada foi cumprimentada pelo belo rio que corria majestosamente à sua frente:
— Seja bem vinda à sua nova morada!
— Obrigada! Acho que estou meio tonta. Não consegui ainda entender o que se passou comigo. Agradeceu estressada.
— Ao invés de entender, procure sentir as diferenças. Aconselhou o rio com sabedoria.
Apesar de todo o estresse, sentia-se mais relaxada como se tivesse libertado de algo que aprisionara. Limitou-se a seguir os conselhos do rio sentindo cada diferença que a sua nova morada lhe proporcionava. Uma sensação de bonança apoderou-se de si. A cada dia suas raízes se fixavam cada vez mais naquele novo chão. Novas estações vieram e com elas novos galhos, ramos, folhas e flores foram brotando de seu corpo que pareceu ter passado por um processo de renascimento.
A tristeza e a insatisfação se dissiparam com a força do tornado que a tornou, dia após dia, cada vez mais forte, frondosa e alegre. Transformou-se, finalmente, naquilo que sempre julgou ser. Grandiosa, acolhia em seus galhos pássaros de inúmeras espécies. Estava feliz, pois não se sentia mais como no passado, limitada a algo inexplicável que a impedia de crescer.  No entanto, a saudade de seu amigo beija-flor lhe impedia  sentir-se totalmente realizada. O terrível tornado que acabou se tornando uma bênção em sua vida lhe separou da melhor companhia que possuía. Sentia falta de suas histórias e até mesmo da dificuldade que seu estimado amigo possuía para compreendê-la. Nenhum pássaro seria capaz de substituí-lo. Vivendo este sentimento, compreendeu o quanto é insubstituível cada ser que nos cativa.
Entorpecida pela nostalgia dos velhos tempos foi despertada pela chegada estranha de um velho beija-flor que, já cansado, soava um canto triste que tocou profundamente o seu coração. Ofereceu ao mesmo as boas vindas e o farto alimento que poderia extrair de suas flores que magicamente tornava a vida mais doce:
— Seja bem vindo a esta nova morada e fique nela quanto tempo desejar.
— Quanta hospitalidade! Exclamou o beija flor.
— A minha hospitalidade é fruto da grandeza que me foi concedida. Completou a árvore hospitaleira.
— Você me faz lembrar de uma grande amiga do passado que ainda se faz presente dentro de mim. Falou cheio de saudade aquele velho e cansado beija-flor.
— Ela era assim, grande como eu? Perguntou a árvore cheia de curiosidade.
— Ela tinha uma alma grandiosa, mas não conseguia crescer. Sofria com isto, pois não conseguia entender a paradoxal condição de seu ser - "Ser pequena sentindo-se tão grande". Eu era um dos poucos pássaros que buscava refúgio em seus galhos.
— Onde ela vive? Perguntou a árvore.
— Não sei se ela vive, só sei que viveu por um bom tempo dentro de um lindo vaso de cerâmica enfeitando  a minha vida e o alpendre de uma suntuosa fazenda. Respondeu o beija-flor com pesar.
— Mas o que aconteceu com ela? Ela não vive mais lá?
Com os olhos lacrimejando, o velho beija-flor contou o suposto trágico fim de sua melhor amiga:
— Algum tempo atrás, um grande tornado passou por lá e levou a minha querida companheira. Ela levantou vôo como se fosse um pássaro. A mercê de um vaso de cerâmica, incapaz de se sustentar com a força do vento, foi levada para algum lugar que não se sabe onde. Se tivesse suas raízes presas ao chão, com certeza teria se salvado, pois era forte demais.
Naquele exato momento, uma emoção grandiosa tomou conta daquela árvore. Finalmente, além de poder compreender a razão de seu nanismo no passado, mediante as informações repassadas pelo novo inquilino, pôde também ter certeza de que aquele velho beija-flor era o seu jovem companheiro. Tomada de emoção, indagou o seu discurso fatídico:
— Como pode ter certeza de que ela não se salvou?
— A ausência dela me diz isto. Respondeu o velho amigo.
— Às vezes, a ausência nos provoca um vazio tão grande que a gente se perde dentro dele e não consegue perceber a presença daquilo que nos é mais valioso. Advertiu a árvore.
— Pode ser, mas o meu sonho é poder voltar naquela fazenda e encontrar, naquele alpendre, a minha querida amiga. Ah, se essa mágica acontecesse! Eu ficaria muito feliz! Exclamou o beija-flor fantasiando um reencontro.
— Esta mágica traria, ilusoriamente, a sua felicidade e, realisticamente, a ruína de sua amiga. Censurou a árvore com firmeza.
— Como assim? Perguntou o beija-flor surpreso com a intervenção daquela árvore que falava com segurança de uma vida que mal conhecia.
— Agora eu entendo porque sua amiga não crescia e entendo ainda mais o sofrimento dela. Assegurou-lhe a árvore.
— Como você pode entender se nem mesmo ela entendia? Retrucou o amigo.
— Ela sabia que vivia contida, mas não sabia que vivia dentro de um vaso. Replicou a árvore tentando explicar a sua passada condição.
— Como ela poderia não perceber o vaso que vivia?
— O vaso era seu mundo. Não tinha consciência de que existia um vasto mundo lá fora. Tinha consciência apenas do grandioso universo que existia dentro de si e da dificuldade de expandir-se conforme o potencial que possuía. Jamais conseguiria se tornar uma árvore como sou hoje restrita a um vaso que lhe demarcava um território tão limitado. Conjeturou a sábia árvore.
— Na verdade aquele vaso não era tão pequeno assim. Era apropriado para o seu tamanho. Uma árvore pequena não precisa de um grande vaso.
Percebeu que o amigo beija-flor continuava o mesmo. Parecia não conseguir enxergar o que para ela era óbvio. Irritada com a sua ignorância, repreendeu rispidamente:
— Como pode dizer que ela era pequena? Será que não consegue perceber que o vaso lhe impedia crescer conforme o seu verdadeiro potencial?  Ela se libertou daquele vaso e acho que você precisa se libertar do seu.
— Eu não estou plantado em vaso algum. Sou um pássaro, sou livre e posso voar.
— Você é um pássaro que semeou a sua forma de pensar num vaso bem pequeno. Talvez um tornado possa um dia chegar, agitar sua cabeça e quebrar este vaso que limita a possibilidade de você enxergar.
— Eu não tenho problemas de visão. Eu enxergo muito bem. Certificou-se o pássaro.
— Então me diga, como você me vê? Quem acha que sou? Perguntou, ansiosamente, a árvore amiga.
— Na verdade eu te vejo como o sonho de minha velha amiga. Por eu estar muito preso a ela, talvez eu tenha mesmo um pouco de dificuldade para lhe perceber tal como você é. Mas, no fundo te acho bem convencida ao tentar explicar fatos que não lhe pertencem.
 Impaciente, a bela árvore lhe ofereceu uma apresentação formal e se preparou para um grande abraço:
— Meu velho amigo, como pode dizer que esta história não me pertence. Eu a construí à custa de muito sofrimento. Olhe para o chão e verá ainda próximo às minhas raízes os fósseis da minha prisão.
O beija-flor dirigiu seu olhar para o chão e verificou que, ainda próximo à raiz daquela árvore, repousava pedaços de cerâmica idênticos à cerâmica do conhecido vaso que habitou por tanto tempo sua querida amiga. Emocionado e envergonhado soluçou algumas palavras tentando um reconhecimento:
— Eu não posso acreditar que você é você!
— Você nunca acreditou em quem eu era realmente. Só acreditava naquilo que podia ver. Não acreditava na minha essência, nos meus sonhos e nos meus sentimentos. Relembrou a árvore.
Decepcionado consigo mesmo, o beija-flor clamou ao divino:
— Oh, Deus! Qual o tamanho do vaso que me limita? Eu que pensava ser livre... O tornado passou e não rompeu o meu vaso. Talvez a realização do meu maior sonho possa romper a cerâmica da óbvia certeza que me habitou até este exato momento mantendo rígidos os meus pensamentos.
A árvore repleta de afeto e sabedoria aproveitou-se de uma brisa para abraçá-lo com seus galhos e felizes viveram o reencontro de tudo aquilo que pareceu um dia ter ficado perdido. Para que nunca mais se esquecessem da lição do tornado, o presságio de uma tempestade passou a ser sempre marcado pelo importante aviso do vento:
— Nunca se esqueçam de avaliar o tamanho do vaso ou do espaço onde foi semeado seus pensamentos, suas emoções, seus sonhos, enfim sua vida. Há um espaço infinito para tudo e para todos, mas nem sempre reconhecido e vivido.